As duas bolas de Mané Abreviado

 

“Mu adikijila o mulembu, mu ejila o nvula.”[1]

(“Para onde se apontou o dedo, é de onde veio a chuva.”)

 

 

Vou pôr no mundo uma estória acontecida. Pelas tristezas vindouras, vos previno: previnam de prevenção os corações, as inacontecíveis lágrimas. Este é um caso muito veloz, fósforo já soprado. Tal qual a vida breve de Mané Abreviado. Seu nome era sua mais evidente pré-munição. A mãe que lhe pariu e pôs o nome, já desconfiava?

Era uma sexta-feira, sem ser trezeada. Contudo, incoberta de azares. Mané Abreviado acordara mais cedo que o possível, nove horas á éme. Havia umas longínquas voltas a dar, em bandas aperigosadas pela delinquência, perto do Roque Santeiro. Esse mesmo, contabilizado em revistas de especialidade como maior mercado ao ar-livre de África. Mas alguém contabilizou seus livres ares? Alguém cutucou as sociais inerências àquele humano formigueiro? Bem: reticências.

Abreviado avisou o seu motorista: «hoje vens lá comigo». O homem sorriu-se: «o chefe tá com medo?», enjeitando a calça no cinto, em acelerada magreza. «Não é medo! É precaução. Aquelas bandas são perigosas.» O motorista ainda lhe sobreavisou: «leve a pistola, chefe…», mas Abreviado encarava a pistola muito intimamente, como algo a reter em casa, não era cão de passear. E foram. Estamos nas dez da manhã. Fatídica?

A cidade transpoeirando-se; os hiaces taxeando a toda capital angolana; os machimbombos vomitando gentes e cansaços. «Chefe, quer que eu vá conduzir?», indagou o motorista. «Não, não, já sabes que não gosto dessas figuras.» O carro segue, soluçando nos buracos.

De longe, Abreviado avista a multidão, multidimensional. Um espanto, um espanto. Há de tudo ali: corte de cabelo, corte de cabeça, carro, documentos menos verdadeirosos, prostitutas(os), comida, serviço de matadouro encomendativo, só não tem correio e internet. Por enquanto. A visão vai-se tornando mais gigantesca e nítida na medida em que se aprochegam. Estão agora frequentando a derradeira estrada paralela ao mercado. Um mundo de cor e cheiro saltita para dentro da viatura. «Agora é preciso muito cuidado…», brinca, ante-vidente, Mané Abreviado. Coitadíssimo.

Mais duas curvas e, à direita, surge um campo em aberto. Em alegre folguedo – como diria o outro, o internacional jogo se desenrola. Uma partida de futebol. Mas, curioso!, os jogadores se estatualizaram, olhantes. Por uma unhésima de segundo Abreviado ainda julgou que eles mesmos, passantes, viaturantes, estivessem a ser alvo de futebolística contemplação.

Um estouro estorvou-lhe a pensatividade. O carro quase escorrega em contrária faixa; Abreviado controla a viatura, aberma-se da beira, esquece a estrada. Agora sim, os futebolistas se movimentavam unissonamente para aqui. Para ali. «Ai, querem ver?», o motorista, esse, por ironia, no lugar do morto.

Saídos do carro, Abreviado contemplou o aborto da ex-bola sendo pontapeado de um para outro lado, em dois ou três automobilísticos passes, sem golo acontecido. Abreviado, sem dar conta do real perigo iminentíssimo, ainda indagou sorrindo:

– Quem é o capitão da equipa?

A multidão engoliu-o lentamente. A partir daí Abreviado não mais vislumbrou sua viatura. Distinguia, no meio da multifusão, a cara de seu motorista. Choveram duas chapadas. Bofatadas. O que pareceu acordá-lo para a realidade. «Calma, calma…», berrou, enquanto dedilhava o bolso, tentando apalpar sua carteira. Ausente. (Desespero.) Com tudo berrou de novo: «Calma, calma, tenho dólares aqui no bolso.» Choveram dois contapés. Abreviado, aos berros, chamou seu motorista. Fez questão de ser ouvido:

– Ó António… estão aqui os dólares… vais ali ao mercado e compras duas bolas de futebol, estás a ouvir?! – berrava, lacrimejante, lacrimijado.

– Estou a ouvir, sim…

– Então repete – gritou nos pulmões oprimidos. – Quantas bolas vais comprar?

– Vou comprar duas; vou comprar duas bolas… – berrou, afastando-se.

Duas bolas. Passada seja a expressão. António afastou-se na correria de sua pressa, no suor de seus medos. Enquanto indagava acerca da desportiva zona, ia olhando para atrás, no foco do conflito: uma colmeia se desmultiplicava em humanas abelhas. Todos irrequietando-se em vozes, cuspos e movimentações. António quis despachar-se. Correndo, encontrou as definitivas bolas. «Depressa, depressa…», acenava verdemente com a mão. Já se afastara. Porém, de regresso: «mas são de catchú?!», perguntou aos berros. Só risos. Sorrisos que lhe ficaram agravados na memória.

Quis voltar ao sítio conflitual. Mas onde era esse sítio? O Roque é muito imenso, suas fronteiras nem o avião conhece. António, duas bolas na mão, procurou a avultada multidão, inencontrando-a. Entregou-se a seu débil instinto; caminhou. Pelo traço acaranguejado da areia apercebeu-se que estava no derradeiro local. Mas o chefe? A viatura? A multidão então? (Muxoxo.)

Sem crer em sua encarnada visão, António lacrimejou-se de nojo e emoção. Os restos do corpo de Abreviado estavam rarefeitos na areia, carne humana picada, esfarelo de gente. Sombra abreviada de Abreviado. Entre o tanto, as bolas de catchú já tinham escorregado para longe. Duas bolas. António distinguiu duas bolinhas escarniçadas ao pé da restante famigerada roupagem. Cueca? Reolhou, em revolta: paus, pedras, sanguinolentas ferramentas. E o apito.

Ao longe o apito trouxe-lhe à realidade que se exibia em sua continuidade. O desafio reiniciara-se. Olhou: uma bola de catchú jazia suplente no canto da baliza.

Seu chefe fora abreviado. Roque santeiramente.

 

[1] Provérbio 407, retirado da obra Misoso Vol. I, de Óscar Ribas.

Photograph: Michael Hughes.